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Saúde

Uso de testosterona por mulheres cresce e reacende debate sobre segurança, menopausa e prescrição

Elisa Marvani
Elisa Marvani 15 de setembro de 2026
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Aumento das prescrições nos EUA ocorre enquanto especialistas e a Anvisa alertam contra uso indiscriminado do hormônio por mulheres.

Contents
Por que aumentou o uso de testosterona por mulheres?Quais são os riscos e por que a prescrição exige cautela?O que mulheres e médicos precisam saber antes de considerar testosterona?Fontes:

O uso de testosterona por mulheres voltou ao centro do debate médico após dados dos Estados Unidos indicarem forte crescimento das prescrições nos últimos anos, especialmente entre pacientes que procuram tratamento para redução do desejo sexual associada à menopausa. Levantamento divulgado pela Reuters nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, aponta que as prescrições femininas de testosterona nos EUA quase triplicaram entre janeiro de 2023 e julho de 2026.

O crescimento ocorre, porém, em um cenário de importantes limitações científicas e regulatórias. Nos Estados Unidos, não existe atualmente produto de testosterona aprovado pela FDA especificamente para uso em mulheres, e a agência reconhece lacunas sobre eficácia e segurança de longo prazo nessa população. No Brasil, a Anvisa publicou em agosto um alerta afirmando que a reposição de testosterona não é uma necessidade universal feminina e advertindo sobre seu uso indiscriminado para menopausa, estética, emagrecimento, ganho de massa muscular ou suposto rejuvenescimento. A discussão, portanto, não é simplesmente se mulheres podem usar testosterona, mas em quais situações existe evidência científica suficiente para considerar esse tratamento.

Por que aumentou o uso de testosterona por mulheres?

A expansão observada nos Estados Unidos está fortemente relacionada ao interesse crescente pelos tratamentos da menopausa e da saúde sexual feminina. Segundo a Reuters, prescrições de testosterona para mulheres quase triplicaram entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Parte dessas pacientes procura o hormônio diante da redução persistente do desejo sexual, enquanto a maior divulgação de tratamentos hormonais nas redes sociais e em serviços especializados também colocou o tema em evidência. O problema é que “testosterona baixa” não deve ser automaticamente interpretada como uma doença feminina que exige reposição, nem sintomas inespecíficos como cansaço, perda de disposição ou alterações de libido justificam isoladamente a prescrição.

Essa distinção é especialmente importante no Brasil. Em agosto de 2026, a Anvisa classificou como falsa a ideia de que todas as mulheres precisam repor testosterona para melhorar saúde, disposição ou prevenir efeitos do envelhecimento. A agência destacou posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Segundo essas entidades, a indicação reconhecida cientificamente para o tratamento com testosterona em mulheres está relacionada ao transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) na pós-menopausa, depois de avaliação clínica adequada e exclusão de outras causas.

Isso significa que perda de libido e TDSH não são necessariamente a mesma situação clínica. Alterações no desejo sexual podem estar associadas a medicamentos, depressão, dificuldades no relacionamento, sintomas geniturinários da menopausa, outras doenças ou diferentes aspectos físicos e psicossociais. A avaliação precisa considerar esse conjunto antes de atribuir o problema exclusivamente à concentração de testosterona. O consenso internacional sobre testosterona em mulheres também sustenta uma indicação restrita, em vez de defender a reposição hormonal de maneira generalizada. Para a paciente, portanto, a pergunta mais útil não é simplesmente “minha testosterona está baixa?”, mas se existe um diagnóstico clínico que justifique considerar esse tratamento.

Quais são os riscos e por que a prescrição exige cautela?

O crescimento da procura não eliminou uma das principais limitações atuais: a falta de formulações desenvolvidas e aprovadas especificamente para mulheres em determinados mercados. A FDA informa que os produtos de testosterona aprovados pela agência são destinados a homens com níveis baixos ou ausência de testosterona associados a condições médicas específicas. A Reuters relata que, nos Estados Unidos, essa situação faz algumas mulheres utilizarem pequenas frações de formulações masculinas ou recorrerem a produtos manipulados, criando dificuldades relacionadas à dose, ao acesso e à padronização. Farmácias também passaram a rejeitar determinadas prescrições, enquanto problemas de cobertura por seguros aumentam o custo para algumas pacientes.

No Brasil, a Anvisa alerta que o uso sem necessidade comprovada, em doses inadequadas ou associado a outras substâncias pode produzir consequências importantes. Entre os efeitos mencionados pela agência estão acne, alopecia, alterações hepáticas, dislipidemia, dependência psíquica e problemas cardiovasculares. Alguns efeitos androgênicos podem se tornar particularmente relevantes quando são utilizadas doses excessivas. Por isso, promessas de aumento de energia, emagrecimento, rejuvenescimento, ganho muscular ou melhora indiscriminada da libido não constituem justificativa científica suficiente para tratamento hormonal. A decisão exige avaliação individual dos benefícios esperados e dos riscos.

A farmacovigilância brasileira também oferece um sinal para acompanhamento. Segundo a Anvisa, notificações de eventos adversos relacionadas a medicamentos classificados como anabolizantes cresceram nos últimos anos, atingindo um pico em 2024; testosterona e somatropina concentraram mais de 90% dos registros desse grupo. A própria agência ressalta que o aumento das notificações não comprova necessariamente crescimento proporcional dos eventos, pois fatores como maior conscientização e expansão dos sistemas eletrônicos podem influenciar os números. Ainda assim, os dados reforçam a necessidade de acompanhamento médico e vigilância sobre o uso dessas substâncias. Testosterona é medicamento e não deve ser tratada como suplemento de bem-estar ou estratégia estética.

O que mulheres e médicos precisam saber antes de considerar testosterona?

A avaliação de uma mulher com redução do desejo sexual deve começar pela investigação do quadro clínico, e não pela prescrição automática de testosterona. O médico precisa considerar idade, fase da vida reprodutiva, menopausa, medicamentos em uso, saúde mental, doenças associadas, sintomas geniturinários e fatores relacionados à vida sexual e ao relacionamento. A Anvisa enfatiza que a indicação depende do quadro individual e deve levar em conta sintomas, histórico de saúde, exames quando apropriados e evidências científicas. Dessa forma, não existe um modelo universal de “reposição feminina” aplicável a qualquer mulher que apresente cansaço ou diminuição da libido.

A ciência ainda tenta responder perguntas importantes sobre o tema. A FDA programou para 17 de setembro de 2026 uma reunião pública dedicada especificamente ao uso de testosterona em mulheres na menopausa. Entre os assuntos destacados pela agência estão os possíveis efeitos sobre função sexual, cognição, humor e saúde musculoesquelética, além das dificuldades de interpretar níveis laboratoriais de testosterona e da falta de informações robustas sobre segurança de longo prazo, particularmente em relação a riscos cardiovasculares e câncer de mama. A Reuters também informa que mais de 30 estudos clínicos estão avaliando aplicações da testosterona em mulheres e que empresas trabalham no desenvolvimento de formulações femininas específicas.

Esse cenário ajuda a explicar por que existe simultaneamente interesse médico crescente e cautela regulatória. Novos ensaios poderão ampliar, restringir ou refinar as indicações no futuro, mas resultados ainda em investigação não devem ser tratados como benefícios comprovados. Para profissionais brasileiros, acompanhar atualizações da Anvisa e posicionamentos das sociedades médicas é especialmente importante diante da popularização de conteúdos sobre hormônios nas redes sociais. Para as pacientes, o aumento das prescrições observado em outros países não significa que o tratamento seja necessário ou apropriado individualmente. A indicação precisa nascer de uma avaliação clínica completa, com discussão dos benefícios, limitações e possíveis efeitos adversos.

A expansão do uso de testosterona por mulheres coloca em evidência uma questão legítima da medicina: durante muitos anos, diferentes aspectos da menopausa e da saúde sexual feminina receberam atenção científica insuficiente. O crescimento da pesquisa pode contribuir para tratamentos mais bem definidos e, eventualmente, para formulações desenvolvidas especificamente para mulheres. Ao mesmo tempo, interesse crescente não deve ser confundido com evidência suficiente para utilização generalizada.

No Brasil, a orientação mais recente da Anvisa é clara ao afastar a ideia de reposição obrigatória e alertar contra indicações estéticas, de rejuvenescimento ou baseadas simplesmente em supostos níveis baixos do hormônio. Mulheres com perda persistente do desejo sexual ou outros sintomas relacionados à menopausa devem procurar ginecologista, endocrinologista ou outro profissional habilitado para avaliação individual. A testosterona não deve ser iniciada, modificada ou interrompida por conta própria, e nenhuma informação online substitui consulta e acompanhamento médico.

Fontes:

  • Reuters — Testosterone scripts for women rise, along with denials and delays (15/09/2026)
  • Anvisa — Reposição de testosterona NÃO é obrigatória para mulheres (07/08/2026)
  • FDA — Reunião pública sobre uso de testosterona em mulheres na menopausa
  • FDA — Informações oficiais sobre produtos de testosterona
  • ISSWSH — Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women
  • Anvisa — Bulário Eletrônico de medicamentos
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