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Exercício físico reduz carga de fibrilação atrial e internações, aponta estudo apresentado no ESC 2026

Elisa Marvani
Elisa Marvani 31 de agosto de 2026
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Ensaio NEXAF acompanhou 295 pacientes durante um ano e encontrou benefícios de um programa personalizado que combinou sessões supervisionadas, exercícios em casa e acompanhamento por tecnologias digitais

Contents
Como funcionou o programa de exercícios?O que mudou nos pacientes com fibrilação atrial?Por que o resultado é importante para a cardiologia?Exercícios em casa podem facilitar adesão ao tratamentoEstudo reforça papel do estilo de vida no tratamentoFontes:

Um programa estruturado de exercícios físicos pode ajudar pacientes com fibrilação atrial a passar menos tempo em episódios da arritmia e ainda melhorar a capacidade cardiorrespiratória, segundo resultados apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) 2026. Os dados são do estudo NEXAF, apresentado em 30 de agosto durante uma sessão de destaque do congresso realizado em Munique, na Alemanha. (American College of Cardiology)

A pesquisa avaliou uma estratégia que combinou um período inicial de exercícios supervisionados com uma etapa mais longa realizada principalmente em casa. Ao final de um ano, o grupo submetido à intervenção apresentou redução significativa da carga de fibrilação atrial em comparação aos pacientes que receberam os cuidados habituais. Também foram observados melhora do condicionamento cardiorrespiratório e menos hospitalizações, embora o estudo não tenha identificado melhora significativa na qualidade de vida. (American College of Cardiology)

Os resultados ganham relevância porque a fibrilação atrial está entre as arritmias cardíacas mais importantes na prática clínica e pode elevar o risco de complicações, especialmente acidente vascular cerebral. O trabalho também reforça uma mudança mais ampla na cardiologia: além de medicamentos e procedimentos, intervenções relacionadas ao estilo de vida e à reabilitação estão recebendo maior atenção como componentes do acompanhamento cardiovascular. (Escardio)

Como funcionou o programa de exercícios?

O NEXAF envolveu 295 pacientes da Noruega, com idade média de 64 anos, dos quais aproximadamente 30% eram mulheres. Os participantes foram distribuídos entre um grupo que recebeu os cuidados habituais, sem um programa estruturado ou supervisionado de exercícios, e outro submetido à intervenção física personalizada durante um ano. Todos receberam um monitor cardíaco implantável, permitindo acompanhar de maneira objetiva a ocorrência da fibrilação atrial. (American College of Cardiology)

Nas primeiras quatro a seis semanas, os participantes do grupo de intervenção realizaram oito sessões supervisionadas de exercícios de alta intensidade. Depois dessa fase inicial, o programa passou a ser conduzido principalmente à distância e em casa, permitindo que os pacientes incorporassem a atividade física à rotina por um período mais prolongado. (American College of Cardiology)

A tecnologia teve papel importante nessa segunda etapa. Relógio inteligente, aplicativo e plataforma online foram utilizados para acompanhamento e orientação remota dos participantes. Essa combinação permitiu aos pesquisadores testar uma estratégia que não dependesse exclusivamente da presença constante do paciente em um centro especializado de reabilitação cardíaca. (American College of Cardiology)

O que mudou nos pacientes com fibrilação atrial?

O principal resultado foi uma redução significativa da carga de fibrilação atrial, isto é, do tempo em que os pacientes permaneceram com a arritmia durante o período analisado. Isso é diferente de afirmar que o exercício eliminou ou curou a fibrilação atrial: os pesquisadores avaliaram se a intervenção poderia diminuir sua presença ao longo do acompanhamento. (EurekAlert!)

Os participantes do programa também apresentaram melhora significativa da aptidão cardiorrespiratória. Esse indicador é particularmente relevante porque representa a capacidade do organismo de utilizar oxigênio durante a atividade física e está relacionado à saúde cardiovascular e à capacidade funcional dos pacientes.

Outro resultado importante foi a redução das hospitalizações entre os participantes submetidos ao programa. Por outro lado, os pesquisadores não observaram uma melhora significativa na qualidade de vida, mostrando que os benefícios encontrados não ocorreram igualmente em todos os indicadores avaliados pelo estudo. (American College of Cardiology)

Por que o resultado é importante para a cardiologia?

A fibrilação atrial ocorre quando a atividade elétrica dos átrios se torna desorganizada, provocando batimentos irregulares. A condição pode causar palpitações, cansaço e falta de ar, embora algumas pessoas apresentem poucos sintomas. Um dos problemas mais relevantes é o aumento do risco de formação de coágulos e de acidente vascular cerebral, razão pela qual determinados pacientes precisam utilizar medicamentos anticoagulantes. (Escardio)

O tratamento pode envolver medicamentos para controlar frequência ou ritmo cardíaco, anticoagulação para pacientes com risco de eventos tromboembólicos e procedimentos como a ablação por cateter em situações selecionadas. O NEXAF não propõe substituir essas abordagens pelo exercício físico, mas acrescenta evidências de que programas personalizados de atividade física podem integrar uma estratégia mais abrangente de acompanhamento.

A própria Sociedade Europeia de Cardiologia publicou em agosto de 2026 suas primeiras diretrizes especificamente dedicadas à reabilitação cardíaca. O documento destaca benefícios que podem incluir melhora da capacidade física, qualidade de vida e bem-estar, além de redução do risco de futuros problemas cardiovasculares em diferentes populações elegíveis para reabilitação. (Escardio)

Exercícios em casa podem facilitar adesão ao tratamento

Um dos aspectos de maior interesse do NEXAF está no formato híbrido utilizado pelos pesquisadores. Em vez de exigir acompanhamento presencial durante todo o ano, a supervisão mais intensa ficou concentrada no início do programa, enquanto posteriormente os pacientes passaram a realizar grande parte dos exercícios em casa.

Segundo Bjarne Nes, pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia que apresentou o estudo no ESC 2026, a intervenção mostrou-se viável para a prática clínica. A utilização de ferramentas digitais para monitoramento remoto pode ser uma maneira de ampliar programas de reabilitação baseados em exercício, que continuam subutilizados apesar das recomendações existentes. (American College of Cardiology)

Isso não significa, entretanto, que pacientes com fibrilação atrial devam iniciar exercícios de alta intensidade por conta própria. O programa investigado foi personalizado, começou com sessões supervisionadas e envolveu acompanhamento dos participantes. Condição clínica, medicamentos utilizados, presença de outras doenças e capacidade física podem alterar a indicação e a intensidade segura da atividade para cada pessoa.

Estudo reforça papel do estilo de vida no tratamento

Os resultados do NEXAF acrescentam evidências ao debate sobre o papel das intervenções não farmacológicas no controle da fibrilação atrial. A possibilidade de combinar supervisão presencial inicial, atividade física domiciliar e monitoramento digital cria um modelo que pode facilitar a adoção de programas de longa duração, embora sejam necessárias avaliações individuais e acompanhamento profissional.

O estudo foi apresentado justamente durante o ESC Congress 2026, realizado entre 28 e 31 de agosto em Munique. O encontro reúne especialistas de diversas áreas da cardiologia para apresentação de pesquisas, novas diretrizes e resultados de grandes ensaios clínicos. (Escardio)

Para pacientes com fibrilação atrial, a principal mensagem não é que o exercício substitua medicamentos, anticoagulação ou procedimentos indicados pelo cardiologista. Os resultados mostram que uma intervenção física estruturada e personalizada pode funcionar como mais uma ferramenta dentro do cuidado cardiovascular, com potencial para reduzir a carga da arritmia, melhorar o condicionamento e diminuir hospitalizações.

Fontes:

American College of Cardiology — resultados do NEXAF no ESC 2026

European Society of Cardiology — apresentação oficial do estudo NEXAF

European Society of Cardiology — ESC Congress 2026

European Society of Cardiology — Diretrizes de Reabilitação Cardíaca 2026

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