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Saúde

Nanopartícula desenvolvida na USP combina duas estratégias para acelerar cicatrização de feridas crônicas

Diego Velázquez
Diego Velázquez 17 de agosto de 2026
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Tecnologia criada por pesquisadores da USP reúne resveratrol e silenciamento genético em uma única formulação. Em experimentos de laboratório, tratamento reduziu inflamação e favoreceu regeneração celular em 72 horas, mas ainda não foi testado como terapia em pacientes.

Contents
Por que feridas crônicas são difíceis de cicatrizar?Tecnologia ataca dois problemas simultaneamenteResveratrol completa a estratégiaNanopartícula funciona como sistema de transporteTestes apresentam resultados em 72 horasTestes também utilizaram pele suínaTecnologia ainda não está disponível para pacientesÚlceras diabéticas estão entre possíveis aplicações futurasPesquisa abre caminho para tratamentos mais direcionados

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram uma nanopartícula destinada a enfrentar simultaneamente diferentes mecanismos que dificultam a cicatrização de feridas crônicas. A tecnologia foi desenvolvida na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto e busca novas alternativas para lesões como úlceras associadas ao diabetes e escaras em pessoas acamadas. (Agência Fapesp)

A pesquisa ganhou destaque novamente nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, após a divulgação dos resultados. Segundo os pesquisadores, essas feridas podem permanecer abertas durante meses ou até anos e estão relacionadas a complicações como infecções e amputações, além de prejudicarem significativamente a qualidade de vida. Estima-se que as feridas crônicas afetem entre 1% e 2% da população. (Agência Fapesp)

O diferencial da tecnologia está na combinação de duas abordagens: o uso do resveratrol, conhecido pelas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, e uma molécula de RNA capaz de reduzir a produção de uma enzima que, quando encontrada em excesso, contribui para a degradação dos tecidos.

Por que feridas crônicas são difíceis de cicatrizar?

Uma ferida comum normalmente passa por diferentes fases até o fechamento da pele. Nas feridas crônicas, entretanto, determinados mecanismos envolvidos nesse processo deixam de funcionar de maneira adequada.

Pode ocorrer inflamação persistente, aumento do estresse oxidativo, dificuldade para formar uma nova camada de pele e atividade excessiva de enzimas que degradam componentes necessários para a reconstrução do tecido.

Os tratamentos disponíveis podem envolver curativos e, conforme o quadro clínico, medicamentos e outras intervenções. O problema é que controlar infecção ou inflamação nem sempre é suficiente para eliminar todos os mecanismos responsáveis por manter uma lesão aberta. (Agência Fapesp)

Foi justamente essa complexidade que levou os pesquisadores da USP a buscar uma estratégia capaz de atuar em mais de uma frente.

Tecnologia ataca dois problemas simultaneamente

Um dos principais alvos escolhidos foi a enzima MMP-9.

Em condições normais, essa enzima participa do remodelamento dos tecidos. Em feridas crônicas, porém, sua produção excessiva pode favorecer a degradação de substâncias importantes para a recuperação da pele, incluindo colágeno, elastina e fatores de crescimento. (Agência Fapesp)

Para diminuir esse processo, os pesquisadores empregaram uma pequena molécula conhecida como siRNA, ou RNA de interferência.

A estratégia permite silenciar especificamente o gene relacionado à produção da MMP-9, reduzindo a presença excessiva da enzima.

A ideia não é alterar permanentemente o DNA do paciente, mas interferir na expressão de um alvo molecular envolvido no problema.

Resveratrol completa a estratégia

O segundo componente utilizado pelos pesquisadores é o resveratrol.

O composto apresenta propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e já vinha sendo estudado para aplicações relacionadas a feridas. Ele também pode favorecer a migração e proliferação dos fibroblastos.

Os fibroblastos são células essenciais durante a cicatrização porque participam da produção de colágeno e de outros componentes da matriz extracelular responsáveis pela reconstrução do tecido.

Assim, enquanto o siRNA procura reduzir um mecanismo que prejudica a regeneração, o resveratrol atua sobre inflamação, estresse oxidativo e processos envolvidos na recuperação celular. (Agência Fapesp)

Nanopartícula funciona como sistema de transporte

Um dos desafios era fazer com que as duas moléculas chegassem ao local adequado e permanecessem estáveis.

O resveratrol apresenta baixa solubilidade em água e pode se degradar. Já o siRNA também é instável e pode ser destruído por enzimas presentes no organismo.

Para contornar essas limitações, os pesquisadores desenvolveram uma nanopartícula lipídica, que funciona como um pequeno sistema de transporte e proteção dos compostos.

A nanopartícula foi incorporada a um hidrogel, formando uma formulação destinada à aplicação tópica.

A consistência do gel ajuda a manter o produto sobre a lesão por mais tempo e possibilita uma liberação gradual dos componentes. (Só Notícia Boa)

Testes apresentam resultados em 72 horas

Os experimentos iniciais apresentaram resultados considerados promissores.

Em testes in vitro, a formulação reduziu a inflamação e protegeu os tecidos dos danos provocados pelo estresse oxidativo. Também favoreceu a migração dos fibroblastos, processo fundamental para o fechamento das feridas. (Agência Fapesp)

Em um modelo laboratorial de cicatrização, a combinação promoveu praticamente o fechamento da lesão simulada em aproximadamente 72 horas. (Só Notícia Boa)

Esse resultado, porém, precisa ser interpretado com cautela.

Ele não significa que uma ferida crônica em uma pessoa possa ser curada em três dias. O experimento foi realizado em condições controladas de laboratório e representa uma etapa inicial do desenvolvimento da tecnologia.

Testes também utilizaram pele suína

Além das culturas celulares, os pesquisadores avaliaram aspectos da formulação utilizando pele suína, modelo frequentemente empregado em pesquisas dermatológicas por apresentar características semelhantes às da pele humana.

Os experimentos indicaram maior retenção dos compostos e melhor entrega das moléculas aos tecidos. (Só Notícia Boa)

Esses resultados ajudam a determinar se a formulação consegue proteger e transportar adequadamente seus componentes antes que sejam realizados estudos mais avançados.

Tecnologia ainda não está disponível para pacientes

Apesar dos resultados positivos, a nanopartícula ainda é experimental.

A formulação precisa passar por novas etapas de pesquisa antes que possa ser considerada para utilização clínica. Isso inclui avaliações adicionais de segurança e eficácia e, posteriormente, estudos apropriados em seres humanos.

Esse processo é fundamental porque resultados obtidos em células ou modelos experimentais não necessariamente serão reproduzidos com a mesma intensidade em pacientes.

A principal contribuição da pesquisa neste momento é demonstrar que atuar simultaneamente sobre diferentes mecanismos envolvidos nas feridas crônicas pode ser uma estratégia viável.

Úlceras diabéticas estão entre possíveis aplicações futuras

As úlceras relacionadas ao diabetes representam um dos problemas que motivam pesquisas desse tipo.

Pessoas com diabetes podem apresentar alterações circulatórias, neurológicas e imunológicas que dificultam a cicatrização. Quando uma pequena lesão não fecha adequadamente, ela pode evoluir e aumentar o risco de infecção e outras complicações.

Outro grupo importante são pacientes acamados que desenvolvem lesões por pressão, popularmente conhecidas como escaras.

Por isso, uma tecnologia capaz de estimular a regeneração enquanto reduz mecanismos responsáveis pela permanência da ferida poderia ter aplicações relevantes caso sua eficácia e segurança sejam confirmadas nas próximas etapas.

Pesquisa abre caminho para tratamentos mais direcionados

Os resultados mostram como nanotecnologia e terapias baseadas em RNA podem ser combinadas para desenvolver tratamentos mais específicos.

Em vez de agir somente sobre um sintoma, a estratégia procura interferir diretamente em diferentes mecanismos biológicos associados à dificuldade de cicatrização.

A pesquisa foi orientada pela professora Maria Vitória Lopes Badra Bentley, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP, contou com financiamento da FAPESP e teve seus resultados científicos publicados na revista Colloids and Surfaces B: Biointerfaces. (Agência Fapesp)

Agora, os próximos estudos deverão determinar se os resultados promissores observados em laboratório podem avançar para modelos mais complexos e, futuramente, para testes clínicos.

Caso essas etapas confirmem segurança e eficácia, a tecnologia poderá abrir uma nova possibilidade para o tratamento de feridas crônicas, especialmente aquelas que apresentam baixa resposta às abordagens convencionais.

Fontes: Agência FAPESP, publicação de 13 de agosto de 2026; Medicina S/A, publicação de 17 de agosto de 2026. (Agência Fapesp)

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